sexta-feira, 3 de novembro de 2017

As três de Sampa, ou um resumo das conferências de Bernard Nominé em SP a partir de minhas anotações pessoais

 

"E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso"
(Sampa - Caetano Veloso)

Três conferências, três amarrações. As conferências de Bernard Nominé em São Paulo no último fim de semana tiveram para mim a estrutura de um nó. Não somente por se encadearem umas às outras, mas especialmente por terem a função de mostrar um real em jogo na formação que vai além de qualquer possibilidade abordagem através da significação. O nó não demonstra a estrutura, ele é a estrutura. Passo a apresentar aqui um resumo do que ouvi. Certamente não se trata de uma transcrição exata do que foi dito, mas aquilo que consegui ouvir no que Nominé disse. Nesse movimento sempre se perde algo, mas espero que possa ser útil em transmitir um pouco da vivacidade da experiência que esses dias presentificaram para mim.
Bernard Nominé e a demonstração do nó
A primeira conferência, proferida na PUC, “Função do tempo no desejo e seu uso na cultura hoje”, apresenta o tempo como um elemento que participa daquilo que causa nosso desejo. O tempo pode ser tomado na sua vertente simbólica como aquilo que os governantes se esforçaram em sistematizar, organizando-o em seus calendários. Esse é puramente simbólico. Trata-se de uma escrita, um calculo matemático que fatia o tempo de acordo com os acontecimentos naturais (as fases da lua, o dia e a noite, as colheitas, etc.)

Mas o tempo tem uma dimensão real como objeto que não é controlável e, no entanto, nos define. E isso não da mesma maneira para todos. Temos um prazo de vencimento que queremos todos esquecer. É assim para o obsessivo, em seu jogo de procrastinação, para a histérica que se lança na antecipação e para o fóbico que tenta suspender o tempo na prevenção. De todo modo, o neurótico é aquele que nunca está na hora de seu desejo pois acerta seu relógio pela hora da demanda do Outro.
Ao mesmo tempo real e pura abstração é assim que nos dividimos entre o tempo de cada um e a hora que é para todos. De todo modo, o tempo nunca será suficiente, sempre nos faltará tempo para ser. O momento final nunca é e nunca será contado por aquele que vive. Ainda assim é um momento de verdade que impele o sujeito a estar na hora de seu desejo.
Recorrendo às elaborações de Santo Agostinho em suas “Confissões”, Nominé começa a construir uma abordagem borromeana do tempo. Para o filósofo, na experiência humana é possível falar de três “presentes”:
·              Presente do passado – é a nossa memória
·              Presente do Presente – é a intuição
·              Presente do Futuro – é a esperança, a expectativa
Para a psicanálise, o real do tempo cria uma divisão no ser falante e Nominé vai propor que abordemos as categorias agostinianas da seguinte forma:
·              O presente do passado, ser de memória, é puramente simbólico
·              O presente do futuro, como aquilo que so pode ser imaginado, é o imaginário
·             O presente do presente, como real, faz-se permanentemente e só ex-iste deixando de ser. 
Nominé inclui ainda um tempo verbal bastante explorado por Lacan que é o futuro anterior, ou em português, o futuro do presente composto, aquele que é expresso na frase “Eu terei jantado quando ele chegar”.
 
O tempo e o nó
O que se realiza em minha história é o nó entre presente passado e futuro, incluindo o futuro anterior. O que ata os três registro é o dizer. Dizer cedo demais pode não ter efeito algum. Dizer tarde demais não tem mais nenhuma serventia. O dizer da enunciação só tem efeito se chegar no momento certo. O bom momento não é o analista quem decide, é o analisante que lhe sopra.
O real do tempo, o presente do presente, é o que o neurótico evita viver e é o que todas as intervenções do analista tentam delimitar. O analista tem um manejo desse real do tempo. A transferência é uma relação essencialmente ligada ao tempo e seu manejo.  O analisante precisa se haver com seu presente do presente em presença do analista. O Ato do analista deve incidir no momento certo para ter um efeito. A presença do analista se associa ao presente do analisante. Poder viver o presente do presente,  estar na hora de seu desejo é o que a análise pode oferecer a quem atravessa a experiência.
A segunda conferencia, proferida no sábado de manha na USP, tratou sobre “O Corpo, o significante e a letra”.  Nela Nominé começa falando dos efeitos do inconsciente simbólico sobre o corpo e diz que esses podem ser esses efeitos podem ser interpretados em termos de insatisfação sexual.
O nó borromeu
O sujeito tem um corpo. Ele não é um corpo. Essa relação do sujeito com o corpo pode ser tomada em termos de uma estrutura de discurso, a partir do discurso do mestre. O discurso do mestre articula a relação do corpo com o gozo, ao tomar o primeiro como simbólico.
O mestre é o protótipo daquele que domina seu próprio corpo. Ele renuncia ao gozo do corpo em prol do gozo do prestígio, isto é, o gozo do significante mestre. O escravo, ao contrário, é aquele que prefere a vida ao puro prestígio. Ele é definido pelo gozo, mas perde a liberdade de seu corpo. 
O mestre se priva do gozo e, o escravo, da liberdade. O corpo do escravo passa a ser metáfora do gozo do mestre. Mas atenção, mestre e escravo não devem ser tomados aqui como duas pessoas. Somos todos escravos do mestre (salvo algumas exceções), pois temos que recorrer ao significante para sustentar nosso corpo como simbólico. O S1 é o ideal, significante mestre como aquele que supostamente conseguiu vencer o gozo. Já o S2 é o corpo como outro, marcado pelo carimbo do significante ideal. S2 é o corpo simbólico.
Nominé fala que em algumas situações o sujeito pode querer tentar reduzir todo o ser a esse corpo do simbólico, mas que isso é um risco mortal e exemplifica isso com o livro de Yukio Mishima “Confissões de uma Máscara”. Nele o autor relata suas relações com os valores tradicionais do Japão e como esse ideal acaba levando-o ao suicídio através do ritual do sepuku.
Yukio Mishima
Essa dialética do senhor e do escravo, luta por puro prestígio, não é humanamente sustentável. Lacan vai se afastar de Hegel, portanto, exatamente ao introduzir nessa dialética a subjetividade do escravo. Na dialética hegeliana não entra o gozo do escravo, apenas o gozo de seu corpo que é atribuído ao mestre. Lacan vai tomar o escravo como sujeito.
O gozo próprio ao escravo permanece a deriva, escapa a dialética hegeliana e difere do gozo do corpo do escravo. Esses dois gozos não são intercambiáveis, o que é um modo de dizer que a relação sexual não existe.
O Escravo gozo fora de seu corpo que é aquele do gozo do mestre. Sendo assim há uma parte de seu ser que escapa ao mestre. Esse gozo se condensa num objeto a ser situado fora do corpo, objeto que e;e não sacrifica pelo mestre. Esse objeto não faz parte do corpo simbólico e permite ao escravo não se confundir com o que é sacrificado pelo mestre. Trata-se do gozo da vida, suporte do mistério do corpo falante.
Para Nominé essa escrita é aquela de “um”, que se dá completamente no particular. O que ata o sujeito ao corpo é algo que é produto dessa alienação, mas que também lhe escapa. O inconsciente é uma formação de compromisso: ao mesmo tempo em que serve ao outro fazendo metáfora do gozo do outro, ele também se serve disso para fazer “dis-corps”, dis-corpo, um corpo discordante. O inconsciente fabrica sentido a partir desse gozo discordante, que permanece à deriva. O sintoma é aí a resposta possível, ainda que fantasiosa, ao real do corpo que escapa, remendando a relação esquartejada do corpo com o gozo.
 É o nó borromeano que vai permitir melhor apreender qual a função desse gozo discordante. É ele que vai ocupar o lugar de amarração entre real, simbólico e imaginário. É o objeto a que assegura a função do nó. Objeto de separação, mas que também assegura a junção do sujeito com seu corpo. 




O Objeto a no centro do nó borromeano

Embora possam parecer a primeira vista, o nó borromeano e o círculo de Euler são diferentes. O nó borromeano é algo que se pode apertar e reduzir a um ponto bem apertado. É preciso para ter uma representação do mundo que se sustenta é preciso ter uma representação de si mesmo que seja consistente, amarrando os registros do imaginário, do simbólico e do real.
·      Registro do imaginário: Nascemos imaturos neurologicamente, é o estádio do espelho, desenvolvido por Lacan, que vai nos assegurar a ilusão de uma imagem.
·       Registro simbólico: é o registro onde se localiza a morte. O corpo simbólico não é um corpo vivo, ele é mortificado pelo simbólico. Não se pode localizar o gozo ai, no entanto se pode gozar dele, do reconhecimento de seu ser no Outro, como Ideal. O corpo imaginário e o corpo simbólico estão ligados entre si. É o real que liga a imagem do corpo ao significante do Ideal.
·       Registro do real: é o corpo que vive sem pedir nossa opinião. Não é apreendido na imagem que fazemos de nós mesmos e também transborda o corpo simbólico que nos foi reservado.
  
Utilizando-se de uma vinheta clinica, Nominé passa em seguida a articular no nó borromeano os outros gozos que aí consistem. O gozo fálico está fora da imagem do corpo. É anomálico ao gozo do corpo e mostra a cada um os limites de seu próprio corpo. O falo não é um órgão, mas uma função simbólica regulada pelo Outro. É a castração que vem fazer limite ao campo do imaginário. É o objeto a que separa o gozo fálico do campo do Imaginário.
Nominé toma a clinica da histeria para exemplificar essa elaboração do nó e toma o conceito de Entgegenkommung utilizado por Freud para falar dessa experiência do corpo. Trata-se daquilo que foi traduzido como “complacência somática”, mas que a ele parece uma tradução insuficiente, pois em alemão a palavra remete a “concessão”, “boa vontade” e também “vir ao encontro”. Mas trata-se de algo que trata das relações do somático com o psíquico no sintoma histérico. É o que fixa o sintoma histérico a uma significação e dai que surge a repetição. O sentido em si mesmo nunca é fixado, ele foge. O trauma não é a excitação corporal, mas a significação que é atribuída a ele. A parte do corpo tomada no sintoma é como o grão de areia em torno do qual a ostra vai produzir a pérola. Está em Freud essa metáfora.
Mas para Lacan a complacência somática se trata, antes, de uma recusa do corpo. A histérica é aquela que, com seu corpo, recusa em participar totalmente do gozo do Outro (embora ela se preste a ele de outro modo, com suas intrigas).
Para Nominé, a complacência somática  é a participação do corpo real no sintoma histérico. Ela está em concordância com a estrutura da cadeia borromeana. O sintoma histérico da um gozo de sentido ao gozo real. O corpo se põe a imitar o encontro de corpo a corpo que a histérica recusa.
Por fim , Nominé vai localizar em relação ao nó Borromeano como se dá a função da análise e a intervenção do analista. O analista, segundo ele, deve ensinar o analisante a “épisser”. Palavra que em francês tem o sentido de “emendar”, mas também faz homofonia com “épicer” que significa “temperar”, colocar especiarias.
A introdução do ato analítico não desfaz o nó. Pelo contrário, isso fica firme. Trata-se de levar o analisante a fazer a sutura entre seu sintoma e o real parasita que habita seu corpo. É de suturas e emendas que se trata a análise. Isso se faz reduzindo e cortando o ponto em que o neurótico situava o gozo do Outro, pois o Outro do Outro não existe. Essa operação amarra o  o gozo fálico com o gozo do sentido, apertando o nó em torno do que causa o desejo, ou seja, do objeto a.
O corte e a emenda do nó

 A interpretação tem a estrutura de um chiste. Não é por meio da significação que ela participa do nó, mas da sonoridade do significante, e essa sonoridade procede de uma letra.
Por fim, tivemos ainda a realização no Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo da conferência intitulada “Saber fazer ou saber fazer com”. Nominé começou essa conferencia lembrando o dever de interpretar do analista. E ele se pergunta: será que a interpretação depende de um saber fazer?  
Ele responde dizendo que o saber-fazer é a coisa do especialista do expertisse. O que está em jogo na interpretação é de outra ordem, o saber fazer com (savoir y faire) que remete muito mais a saber se virar com algo, a algo que é da ordem da invenção, o saber se inventa.
Conferência no FCL-SP traduzida por Dominique Fingermann
O pedagogo transmite o saber. Na transmissão da psicanálise o que se transmite é antes o desejo de saber. O savoir y faire do analista também tem a ver com estar aí, no momento preciso.
O objeto a permanece inimaginável, ele é a volta não contada do toro, o centro inapreensível do crosscap. Ele ex-siste, se situa sempre ao lado (à cotê).
O centro do nó, segundo Nominé só é definível quando o nó é feito. Os nós corrediços deslizam, é preciso, portanto identificar o centro em torno do qual o nó se aperta. Trata-se de estreitar ao máximo aquilo em torno do qual o trabalho de uma análise gira.
Cada circulo do nó borromeano é, em si, um nó trivial. (pesquisando na internet encontrei que, em matemática, um nó não é um cordão enrolado, mas uma curva no espaço, fechada e que não se auto-intersecta, formando um arranjos espacial peculiar. O adjetivo trivial remete aos objetos topológicos – nós - que têm uma estrutura muito simples, que pode facilmente ser provado ou definido. A origem do termo em linguagem matemática vem do currículo trivium medieval, formado pela lógica, gramática e retórica). A cadeia borromeana é um arranjo formado por três nós triviais. Para saber mais, clique aqui. 
O nó é efeito de um dizer que causa um acontecimento. Ele também implica o tempo, que por sua vez é uma das funções do objeto a. Não é o analista que decide o momento oportuno (Kairós), é o analisante quem lhe indica sem saber
Para Nominé o esforço de Lacan em realizar essa amarração é anterior aos nós borromeus e remete a construção do grafo do desejo, mas essa tentativa se mostrou insuficiente.
O Objeto a surge de um nó de sentido, mas o cerne dessa amarração é um “pas de sense”, significante que em francês faz homofonia entre o sem sentido e um passo de sentido. É o chiste que faz aparecer o cerne do "pas de sense". Aceder a isso é contar de outra forma para saborear de outro lugar essa operação. Aquilo com que se ata o Imaginário e o Simbólico é o real do significante. Nominé da o exemplo de um chiste de um governante que morre nos braços de uma prostituta. 
A interpretação deve ter a estrutura do chiste, trazendo a surpresa. Aqui ele traz duas referencias interessantes, uma delas é a de Shakespeare: “ A fortuna de um gracejo está no ouvido de quem escuta, nunca na língua de quem o faz”. A outra referência é a de Teodor Reik , que escreveu o livro “O Psicólogo surprendido” (Clique aqui para ver uma resenha). Para Reik o psicanalista será surpreendido pelas emergências do inconsciente tanto nele mesmo, quanto no paciente. E ele deve ser capaz de permanecer se surpreendendo para permanecer agindo como analista, mantendo vivo em si mesmo o caminho iniciado durante sua psicanálise pessoal.
Essa presença do analista é ao mesmo tempo, um tempo e um lugar, um “dizer que não” que faz o corte. Para que o analista apreenda esse “saber fazer com” não basta repetir o que Lacan disse, é preciso se colocar na experiência. O sinthome elaborado por Lacan remete a que cada um saiba fazer algo de seu gozo, algo que seja suportável, tirando o melhor de si. 
E agora, finalizando o rascunho e a tentativa de amarração de tudo que ouvi e vivi de forma intensa esses dias em São Paulo, vou me aventurando a elaborar algo sobre o que estava em jogo quando pensamos na amarração borromeana dessas três conferências.

Algumas amigas que estiveram por lá

Do tempo como modo de pensar os registro do imaginário (presente do passado), simbólico (presente do futuro) e real (presente do presente) Nominé extraiu o objeto a como o atemporal de cada sujeito. Gozo discordante com a programação dos ideais coletados do Outro, é ele quem permite uma amarração possível entre s três registros, mas ao mesmo tempo mantendo uma distância necessária entre cada um deles. Essa delimitação tão clara é o que não existe sem uma análise. Sem os ditos que se desenrolam trivialmente em uma análise, repetidos à exaustão, não existe borda, não existe furo. Ou melhor, os furos estão todos recobertos, preenchidos pelo sentido atribuídos ao gozo do Outro. Cortar esse ponto de gozo e emendar de outra maneira o gozo fálico e o gozo do sentido é o que vai permitir ao sujeito inventar outra maneira de se virar com o gozo anomálico e saber fazer com isso. 
Na costura dessas três conferencias, percebi que elas se transpassam em pelo menos dois pontos (pontes e túneis?): 
1 – não basta repetir o que Freud disse, o que Lacan disse, (nem mesmo o que Nominé disse), é preciso se arriscar na experiência, experimentar. Não ter medo de se aventurar pelo desconhecido, inclusive pelo desconhecido da matemática e da topologia que as vezes provoca resistências entre nós. Urge nos dedicarmos a isso se quisermos estar a altura de nossa tarefa; 2- A interpretação é um dizer com estrutura de um chiste. Ela exige, do lado do analista, que este esteja presente no lugar certo. E do lado do analisante que seja ele a soprar para o analista que momento é esse.
Outros desdobramentos dessa experimentação que foram esses dias em Sampa certamente se farão ouvir.
*****************************************************

PS: os trechos das mídias divulgados nessa página foram autorizados pelo autor.

PS2: atualizando a postagem hoje, 04 de novembro, com o trabalho da artista plástica Fabiana Azeredo, intitulado "Nós do nó" ( Posca sobre papel Fabriano 22x33) inspirado na leitura do texto acima.




quarta-feira, 20 de julho de 2016

A Psicanálise nos Tempos do Cólera ou algumas palavras sobre a apresentação “Parcerias amorosas e laços sociais[1]”



“Aceitem as regras e estarão conectados!”, informou uma das organizadoras do evento enquanto a mesa, composta por reconhecidos nomes da psicanálise, se acomodava. A frase dizia respeito a um probleminha que tinha ocorrido com a rede de wifi e que agora precisava ser registrada para que pudéssemos acessá-la.  Mas lembrada a posteriori, parece mais um prenúncio do que se seguiria.

Freud, em 19 de abril de 1935, escreveu numa carta à uma mãe de um jovem homossexual:
“(...) Não tenho dúvidas que a homossexualidade não representa uma vantagem, no entanto, também não existem motivos para se envergonhar dela, já que isso não supõe vício nem degradação alguma. Não pode ser qualificada como uma doença e nós a consideramos como uma variante da função sexual, produto de certa interrupção no desenvolvimento sexual. Muitos homens de grande respeito da Antiguidade e Atualidade foram homossexuais, e dentre eles, alguns dos personagens de maior destaque na história como Platão, Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci, etc. É uma grande injustiça e também uma crueldade, perseguir a homossexualidade como se esta fosse um delito.”
Nem precisávamos desse posicionamento explícito do pai da psicanálise para deduzirmos que o campo do saber por ele inventado, rechaça qualquer interpretação da sexualidade humana como normatizada: a sexualidade infantil perverso-polimorfa, a variedade ampla do objeto da pulsão, a bissexualidade originária, a dupla vertente do édipo, enfim.
Por isso, passados mais de 80 anos da carta mencionada acima, tendemos a pensar (pelo menos entre quem está engajado em uma comunidade de analistas) que a transferência com a psicanálise, por si só, seria uma garantia de um posicionamento mais aberto acerca da desnaturalização da sexualidade humana. Especialmente entre os ditos “lacanianos”, acostumados que estão com a leitura da entrada no simbólico como subvertendo tudo que pudesse ser tomado como instintual.
Mas o trabalho apresentado por Antonio Quinet no IX Encontro da IF/ EPFCL Brasil em Medellin, Colômbia, alertou a uma plateia, atônita, que não é bem assim. Reunindo trechos de textos e falas proferidas em entrevistas por alguns analistas contemporâneos, Quinet mostrou como tem sido frequente o recurso de certos psicanalistas à teoria psicanalítica para se posicionarem contrariamente a temas da atualidade como o casamento homoafetivo e a adoção homoparental.
Um afeto de horror atravessou a plateia que, entre “ohhhs” e “uhhhs”, ouvia os relatos de declarações homofóbicas (ou homoterroristas, como chamou o autor do trabalho) que reduziam a diferença sexual à anatomia e o Édipo Freudiano à noção de família nuclear burguesa “com pai, mãe e filho natural registrado em cartório e batizado”. Algumas declarações chegavam a associar a homossexualidade a uma perversão inata a esses sujeitos e a comparar a adoção de crianças por casais homoparentais às ações do “Estado Islâmico”. (Isso enquanto ouvíamos pelos corredores do evento as notícias sobre o atentado em Nice e ainda guardávamos na lembrança o pesadelo do ocorrido em Orlando).
Durante a apresentação, o sistema de som (ou de tradução) falha temporariamente. Um real que se atravessa? Quinet resume o que já havia apresentado e rebate todas as teses homofóbicas com argumentos brilhantemente ancorados na obra freudo-lacaniana e na sua própria experiência com a psicanálise.
Enquanto o escuto, suas palavras vão se encontrando e afetando outras memórias. Uma delas ecoava mais forte: o assassinato de uma criança, João Donati, de 18 anos, na cidade goiana de Inhumas. O jovem teve suas  pernas quebradas, foi torturado e enforcado. Em sua boca encontraram um bilhete, escrito pelo assassino, que fazia menção ao fato de ele ser homossexual.
Até escrever esse texto, não sabia porque essa memória tinha se presentificando com tanta força ao ouvir a apresentação de Quinet. Talvez porque soube dela como uma invasão do real (estamos todos conectados, para o bem e para o mal): acessava a linha do tempo do Facebook e, sem ter tempo de decidir se queria mesmo ver aquilo, aparece-me uma foto do corpo do rapaz como foi encontrado em um terreno baldio, desfigurado, ao lado de uma foto de seu perfil na rede social. Podia ser meu filho, podia ser o filho de um amigo. Foi demais.
Mas ao pesquisar para falar aqui desse caso, lembrei o que dizia o bilhete encontrado no corpo de João: “Vamos acabar com essa praga”. Foi esse significante “praga” que encadeou minha lembrança à fala de Quinet que, por sua vez ressoava com outro comentário proferido, nesse mesmo encontro, por Colette Soler: a psicanálise não se transmite pelo saber, ela é, antes epidêmica, transmitida como uma praga. Já disse Freud quando ia visitar os americanos: “Eles não sabem que estou indo lá levar a peste”.
De um lado, o objeto de ataques terroristas (e homoterroristas) do outro, a psicanálise. O que eles tem em comum? Ambos convocam o real, ambos tocam a peste. Mas não certamente da mesma maneira. O discurso analítico é o único que permite fazer algo frente a isso que irrompe como diferença insuportável, mas que habita o cerne do nosso ser. Permite tocá-lo sem precisar destruí-lo, aniquilá-lo, torturá-lo e matá-lo.
Por fim, uma outra epidemia entra na minha cadeia associativa. Enquanto passeava pelas ruas mágicas de Cartagena (ali entendemos de onde vem o realismo fantástico de Gabriel Garcia Marques[2]) lia nas horas de descuido “O Amor nos Tempo do Cólera”. Ao ser tomada pelas histórias de Fermina Daza, Florentino Ariza e Juvenal Urbino e fazê-las encontrar com o que ouvi na apresentação de Antonio Quinet, lembrei da frase de um desses personagens: “...lhe tinha amor bastante para vê-la com olhos de verdade."[3]
Não é qualquer amor que permite ver o outro com olhos de verdade, é o que nos diz Gabo. No que diz respeito às parcerias amorosas, aceitar as regras não é garantia de que estejamos conectados. Há sempre um gozo estranho que se atravessa e que é impossível de conectar.
Fica a pergunta: seria possível hoje, em tempos de surto de cólera (do afeto, mais que da bactéria), pensarmos uma psicanálise que responda à questões da atualidade como uma possibilidade de um novo amor, um amor que seja bastante para que possamos ver o outro com os olhos da verdade, sem que isso nos leve a querer destruí-lo? A apresentação de Quinet me faz acreditar que sim, sob o preço de que não nos calemos e de que não façamos da psicanálise uma justificativa para nos adequarmos às regras.





[1] Parcerias amorosas e laços sociais” é o título da apresentação proferida por  Antonio Quinet no IX Encontro da IF/ EPFCL Brasil em Medellin, Colômbia
[2] Categoria que ele mesmo rejeitava: "é só realismo. A realidade que é mágica. Não invento nada. Não há uma linha nos meus livros que não seja realidade. Não tenho imaginação".
[3] Marques, Gabriel Garcia. O Amor nos Tempos do Cólera. Rio de Janeiro, Record, 1985.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

What Happened, Miss Simone?

 

O aguardado documentário sobre a vida de Nina Simone, uma das maiores vozes do século XX, não desapontou. A diretora Liz Garbus soube compor um mosaico sobre a vida e obra da cantora que passa longe de uma simples exaltação. A pergunta título já deixa entrever o que vamos encontrar ali: uma história demasiado humana e que, por isso mesmo, nos cativa.

What happened, miss Simone? Poderia ser respondia de diversas maneiras: pelo viés político, artístico, histórico. Mas, sem deixar de lado a importância de nenhuma dessas facetas, foi a mulher que encontrei ali que me tomou. Logo nas primeiras cenas, temos uma Nina que sobre ao palco em Montreux com um olhar ausente, perdida em meio aos aplausos que chovem. Talvez ela mesmo se pergunte neste momento: what happened?

Nascida Eunice Waymon, em meio a segregação racial da Carolina do Norte,  se encantou por

Bebedouros separam brancos e negros nos anos 50

Bach na década de 40 e traçou uma carreira de sucesso que a levaria ao Carnegie Hall. Apesar da paixão pelo piano clássico, foi como cantora de jazz e blues que se revelou ao mundo. Tocar e cantar nos bares tornou-se a única alternativa para a filha de uma empregada doméstica com um marceneiro. Foi essa vicissitude do destino quem deu ao mundo o prazer de conhecer a voz robusta e aveludada de Nina (menina, como era chamada por um namorado) Simone (em homenagem a atriz Simone Signoret).

A composição escolhida para se re-nomear revela um ideal : a menina,  branca, bem-sucedida, sensual e politicamente engajada, encarnada na atriz francesa com quem compartilha um mesmo sonho de liberdade. O encontro com seu grande amor, Andy, talvez tenha sido o primeiro descobrimento dessa imagem (todo amor, afinal, não é ao mesmo tempo narcísico e objetal?) A menina cai de amores pelo policial durão, pois ele “sabia o que queria”. Ele a protege, organiza sua vida, passa a ser seu empresário e lhe dá a segurança de que precisava para enfrentar o show business. Mas é este mesmo amor que vai revelar-se em sua face mais cruel, empurrando-a para o trabalho além das forças e espancando-a quando desobedecia.  “Ele me assustava”, dizia Nina, “mas eu o amava e achava que ele ia mudar”. História tão conhecida essa, dessas mulheres, brancas, negras, americanas, brasileiras, que por amor, se deixam (ou se fazem) destruir. What Happened, miss Simone? Como o sonho de liberdade acabou flertando com os grilhões de uma relação abusiva?

Uma palavra que ricocheteia em todo documentário, talvez seja a senha para respondermos à pergunta: anger. Seja uma raiva auto dirigida, nos momentos de depressão; seja nos ataques no palco, onde exigia a atenção que um pianista clássico merecia; seja quando dirigia essa raiva para a filha ainda criança: “minha mãe era movida pela fúria”, afirma Lisa Simone em determinado ponto. Foi essa mesma “fúria” que a permitiu, depois de muitos anos, separar-se de Andy, engajar-se no ativismo pelos direitos civis e fazer disso uma causa.   

Nessa militância ela usa toda sua raiva em prol do ativismos politico, culminando com "Mississipi, Goddam!". Algo como "Misssissipi, puta que pariu!", música feita após a morte de quatro crianças negras  num ataque a uma igreja. Ela disse o que estava engasgado e todo mundo queria dizer. Mas sua raiva levou-a mais longe, chegando a divergir de Luther King quanto ao uso da violência. 

“Are you ready black people? Are you ready to smash white things?”, ouvimos uma Nina quase em transe instigando o público em um de seus shows. O circuito pulsional faz seu trottoir onde "bater" e "ser batido" são duas faces da mesma moeda. “Strange Fruit” essa que carregamos no ventre, que vemos com horror (como o poema cantado
Negros linchados em indiana, origem do poema "Srange Fruits"
por Nina diz), balançando nas árvores para apodrecer como os cadáveres dos negros linchados em Indiana, mas que também encontramos em nós mesmos como nossa causa mais íntima. Estranho familiar, diria Freud.

Nina sonhava com a liberdade, mas quando se desvencilhou das garras de Andy, não soube o que fazer com ela. Destruiu-se e perdeu tudo que tinha e, quando já era uma lenda, se viu completamente perdida cantando em bares anônimos de Paris.

Essa história me lembrou uma outra. A de Ysé, contada por Paul Claudel, e retomada por Colete Soler em seu livro “O que Lacan dizia das mulheres”.  Frente a iminência da partida de seu amante para a guerra, Ysé lhe implora que não vá. Ele se vangloria: Então, no fim a gente tem que confessar que precisa mesmo é do marido! Mas Ysé lhe arranca o pedestal: “Não confie muito em mim. Não sei, sinto em mim uma tentação... E peço que não me venha essa tentação, porque não convém... De que precisa uma mulher, senão de segurança, como a abelha atarefada na colmeia, limpinha e bem fechada? E não esta liberdade assustadora!”
Diz Colete Soler: “Não era contra os perigos da China que ela fazia seu apelo, mas contra a coisa mais próxima. Em síntese, Ysé lhe diz: proteja-me de mim mesma.”

Acho que podemos ler na história de Nina também um apelo, algo que a defendesse dessa liberdade assustadora onde, no final do trilho, o que encontramos, são corpos decompostos balançando numa árvore. Strange Fruits.

O mérito do documentário foi, além de nos proporcionar momentos belíssimos em companhia de Miss Simone, mostrar os diversos ângulos de Nina: da entrega amorosa à fúria odienta, sem reduzi-la a nenhum deles, mostrando-a susceptível de todas as paixões humanas. Assim como qualquer um de nós. 

Afinal, no one can always be an angel, não é Miss Simone?




sexta-feira, 29 de maio de 2015

Análise, supervisão e desejo do analista: enlaces e desenlaces de uma valsa



O famoso “tripé” da formação do analista: análise (um), supervisão (dois), estudo teórico (tres) talvez seja o ponto pacífico para  a maioria das  entidades psicanalíticas. Desde a IPA até a Escola lacaniana, todos repetem isso que já virou quase um bordão. O problema é que, aprendemos no divã, às vezes aquilo que é repetido resta esquecido por trás do que se diz no que se ouve.  Talvez  seja esse o caso do que acontece com a supervisão, ovelha negra desse tripé, não parece ter despertado tanto interesse, pelo menos no que diz respeito a elaboração desta experiência.
No entanto esse dispositivo tem um lugar de fundamental importância, não só para a formação no que diz respeito ao exercício da clínica, mas também pelo que ela pode apontar do desejo do analista. É por isso que gostaria de parabenizar Elynes pela escolha do tema e agradecer pela oportunidade de pensar um pouco acerca de uma questão que eu experiencio e que ainda faltava escrever.
Minha proposta é tentar ver, a partir da minha experiência, o que posso dizer desse enlaçamento entre Análise, supervisão (poderíamos incluir aqui o estudo teórico) e o desejo do analista. Teríamos aí então um tripé enodado por um quarto termo, desejo do analista.
Quero começar então “sacudindo” um pouco esse tripé. Comecemos pela palavra. Tripé vem do latim tripes, -edis, que tem três pés[1]. É um instrumento utilizado para dar estabilidade a alguma coisa. Aliás, descobri que um outro nome do tripé é “estativa” palavra que tem a mesma raiz etimológica que “estátua”, “status” e que tem sua raiz no verbo “estar”. Essa é realmente a primeira imagem que nos ocorre. Mas, eu queria relembrar aqui, na apresentação de Ercília sobre a supervisão, achei muito propícia uma fala de Osvaldo, quando ele disse que esse tripé não pode ser estático, “estativa”, como o tripé de uma maquina fotográfica. Mas a língua nos ajuda a sair do impasse pois não temos somente o pé do tripé, temos o “pé-de-vento”, o “pé-de-valsa”, o “pé-de-planta” e até o “peito-do-pé”. 
Então, é preciso, como disse Osvaldo,  pensar três "pés" que dançam, bailam, se encontram e se afetam:  Um, dois, tres ... um, dois, tres... (pensem na contagem do tempo na valsa!)


É sobre isso que eu queria falar, porque a minha hipótese é de que é o desejo do analista que permite essa dança, impedindo que se congele feito estátua, os três pés no chão.
Porque pensei isso? Porque em primeiro lugar, o desejo do analista é algo que permeia os dispositivos da formação. Depois, porque, para Lacan, o desejo do analista é algo que só pode manter-se de pé ao final de uma análise. É quando o sujeito, até então analisante, experimenta, em ato, o vazio do circuito pulsional do qual se fez, como objeto, o fecho. Ao extrair o gozo que tamponava esse vazio, o sujeito pode se reconhecer aí desvelando a verdade mentirosa que encobria o seu desejo e justificava como uma espécie de álibi a sua impotência em sustentá-lo. É esta operação que vai permitir consentir com o desejo do analista.
Mas, é fato da experiência, os sujeitos na maioria das vezes, não esperam o final da análise para começar a sustentar uma clínica. As vezes entra-se nisso completamente inadvertido, às vezes tem-se um pequenos vislumbre do que mais tarde vai permitir sustentar essa prática, mas isso ainda é tênue. Por outro lado, uma vez tendo essa clínica iniciado, ela convocará o desejo, os encontros com o real, todo mundo que começa a atender em algum momento se dá conta disso. 
E aí, quando o desejo do analista ainda não pode ser sustentado, o que responde é a angústia. Não se fala muito da angústia do lado do analista praticante[2], mas Lacan fala dela no seminário 10: “Mas, quando o analista inicia sua prática, não é impossível, graças a Deus, que, por mais que se apresente uma ótima disposição para ser analista, ele sinta, desde sua primeiras relações com o doente no divã, uma certa angústia.” (p.13) Vejam que Lacan, chistosamente, dá graças a deus por essa angústia. Acredito que seja pelo fato de que angústia e desejo são topologicamente congêneres. Então, a presença da angustia do lado do analista praticante é, antes de tudo, um guia que lhe permitirá explorar oa veredas do seu desejo, na análise: Um, dois tres...um dois, tres..

Dito isto, vou me deter agora sobre o lugar da supervisão nesse processo, examinando-o a partir de duas vertentes:
a)     a vertente dos enlaces e desenlaces da supervisão com a clínica do analista praticante.
b)    a vertente dos enlaces e desenlaces da supervisão para a análise do analista praticante.
A primeira vertente é a mais óbvia. Não é por acaso que Freud ressalta a importância do dispositivo da supervisão ao diferenciar a formação do analista do ensino universitário ao afirmar em “Sobre o ensino da psicanálise na universidade (1918) que “No que diz respeito à experiência prática, além do que adquire com a sua própria análise pessoal, pode consegui-la ao levar a cabo os tratamentos, uma vez que consiga supervisão e orientação de psicanalistas reconhecidos.” Se tomamos a questão através do conceito de “desejo do analista” entendemos que a supervisão surge nesse tripé como o lugar onde esse operador necessário vai poder se colocar (considerando que o supervisor é um analista que já chegou na sua análise ao ponto de poder sustentá-lo)  enquanto a análise do analista praticante ainda não o permite fazê-lo. Na minha experiência isso foi fundamental, principalmente depois que pude fazer da supervisão uma regularidade, não formal, mas necessária, para o refinamento do caso. A questão que descobri aqui, não é tanto a de alguém que sabe e vai te dizer o “como fazer”. Mas é a oportunidade que é a supervisão de poder, ao falar a um outro, elaborar os pontos do caso a partir desse vazio que o desejo do analista sustenta.  É curioso o que leva alguém a pedir supervisão e o que vai permitir a esta instauração momentânea do sujeito suposto saber operar. Não vou discorrer sobre isso aqui, mas posso afirma que isso só vai ser possível a partir da análise do “analista praticante”, até porque, dependendo da fantasia desse sujeito e do ponto em que ela foi ou não tocada em sua análise, os comentários do supervisor podem até ser tomados como crítica ou desaprovação e aí não consegue provocar muito mais do que angústia. Que também é necessária, já vimos, pois ela, por sua vez, vai remeter o supervisionando (analista –praticante) à sua análise, guiando assim os passos que ele vai trilhar: Um, dois, tres... um, dois, tres..

Mas é quanto a segunda vertente desses enlaces que eu mais me surpreendi e queria agora compartilhar com vocês. Queria dar aqui dois exemplos de como a supervisão se enlaça com o tempo da análise e remete a ela:
a)    um analista praticante assiste a um seminário teórico sobre a histeria. Ao final, resolve pedir supervisão ao ensinante que ministrava o seminário. Sua questão sobre o caso era acerca do diagnóstico: há dois anos escutando essa pessoa e a questão do pai não se colocava. Seu lugar no caso era uma incógnita já que não surgia espontaneamente e, mesmo quando perguntada, as respostas pareciam evasivas. Seria então uma psicose? O analista praticante relata o caso, a partir do que ouviu, claro, e coloca essa questão diagnóstica. Primeira pergunta do supervisor: “porque você achou que eu podia lhe ajudar com esse caso?” A resposta foi: porque eu achei interessante as coisas que você falou sobre o lugar do pai na histeria. A resposta do supervisor veio em ato: “então você já se respondeu a sua pergunta quando pensou em me procurar: trata-se de uma histeria. Se o pai não aparece é porque ele está deliberadamente escondido para que ele possa ser salvo. Procure isso.” Um tempo depois, na análise, foi possível perceber como essa intervenção apontava para algo do ato do analista, sustentado por seu desejo, embora ainda não sabido, naquele momento pelo analista praticante: Um, dois, tres.. um dois, tres...

b)    Um analista praticante manda uma mensagem para marcar uma supervisão. Ao escrever, faz um lapso: me avise quando estiver “porta”, ao invés de “me avise quando estiver “pronta”. A supervisora chistosamente responde: “já abri a porta!”. O que vai se desenrolar nessa supervisão não vem ao caso contar aqui, mas posso dizer que, no material que compôs esta supervisão, algumas palavras do supervisor tiveram um efeito ao apontar exatamente para o que impedia o desenganchar de um impasse na análise, abrindo a "porta", literalmente. Mais uma vez, é o trabalho da análise que permite ao sujeito poder atravessá-la:  Um, dois, tres.. um, dois, tres... e o desejo do analista como quarto nó, enlaçando essa valsa!

  
ps: ao final da apresentação deste texto no Fórum do Campo Lacaniano de Fortaleza, a colega e coordenadora da atividade, Elynes Barros, nos brindou com uma música de Chico Buarque de Holanda (indefectível, viu Osvaldo Martins? rs) que remete à nossas discussão. Deixo aqui a letra/poema da música e compartilho também o video:

Tem Mais Samba
(Chico Buarque)

Tem mais samba no encontro que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdão que a despedida
Tem mais samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais samba no chão do que na lua
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer
Vem que passa
Teu sofrer
Se todo mundo sambasse
Seria tão fácil viver










[1]"tripe", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/tripe [consultado em 26-05-2015].

[2] Usarei aqui a designcação “analista praticante” para aquele que, ainda engajado em sua análise, aventura-se a autorizar-se numa prática clínica.