Psicanálise


Cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores... (1)


Inicialmente eu gostaria de agradecer ao Grupo de Estudos em Transtornos Afetivos, na pessoa de seu coordenador o Prof. Dr. Fábio Gomes de Matos e Souza pelo convite para estar neste curso intitulado Transtornos Afetivos ao Longo da Vida. Soube que este espaço é um projeto da Universidade Federal do Ceará, vinculado ao Departamento de Medicina Clínica e composto por estudantes de Medicina, de psicologia, residentes de psiquiatria, além de servidores do Hospital Universitário Walter Cantídio.
Achei importante situar isso porque fiquei realmente curiosa com o convite, pois este supõe que eu possa dizer alguma coisa sobre o tema e, alem disso, alguma coisa que interesse ao público envolvido nesse grupo. Claro que essa terminologia “Transtornos Afetivos” não me é propriamente desconhecida, pois cursei uma graduação em enfermagem e lá nós aprendemos, entre outras coisas, os quadros psiquiátricos. Mas como já faz um longo tempo que não me dedico a essa área, percebi que tinha que voltar nos livros e tentar perceber melhor o que se chama hoje por esse nome “transtornos afetivos”.
Descobri que, segundo o CID 10 os Transtornos do humor ou afetivos são transtornos nos quais a perturbação fundamental é uma alteração do humor ou do afeto, no sentido de uma depressão (com ou sem ansiedade associada) ou de uma elação. Envolvem os Episódio maníaco, Transtorno afetivo bipolar, Episódios depressivos, Transtorno depressivo recorrente, Transtornos de humor [afetivos] persistentes e Outros transtornos do humor [afetivos]
Como isso não me pareceu dizer muita coisa, fui procurar o significado dos termos “Afetividade” e “Humor”. Descobri que a Afetividade é a atividade do psiquismo que constitui a vida emocional do ser humano. O Humor, por sua vez, é a tonalidade afetiva que acompanha os processos psíquicos.
Nesse ponto foi que encontrei um significante que começou a se articular em torno de algumas séries, que me permitiu articular uma fala, e vir aqui dizê-la para vocês hoje. Esse significante foi tonalidade. Achei maravilhosa essa definição de afetividade e humor como relacionada àquilo que dá tonalidade à vida, que colore a vida, dando colorido a cognição, às percepções, aos conceitos, etc. É a Afetividade quem atribui valor e representa nossa realidade. Atribui um colorido às nossas experiências. A Afetividade atribui valor a tudo em nossa vida, tudo aquilo que está fora de nós: como os fatos e acontecimentos presentes ou passados; bem como aquilo que está dentro de nós: nossos medos, nossos conflitos, nossos anseios, etc. A medicina chama de Transtornos afetivos às situações em que esse colorido que damos a realidade está ou mais para preto e branco ou tendendo para cores psicodélicas.
Segundo esse sistema, a explicação para isso estaria em alterações orgânicas (anatômicas - lesões cerebrais, funcionais – alterações do fluxo sanguíneo, metabolismo da glicose) neuroquímicas (alterações nos sistemas serotonérgico e dopaminérgico), etc. Não pretendo entrar nessa discussão sobre a causalidade orgânica desses fenômenos. Embora até hoje os estudos realizados tenham sido inconclusivos, nada impede que um dia encontremos uma base orgânica para os processos psíquicos. Já dizia Freud.
Aliás, sabemos que todo sujeito habita um corpo. Ninguém nunca viu um sujeito andando por ai sem corpo. O que vou falar hoje, no entanto, parte do princípio de que esse corpo que habitamos não é pura e simplesmente carne, orgânico. Ele é habitado, permeado, por algo que chamamos de psíquico, e isso extrapola a dimensão orgânica.
Voltemos ao conceito de afetividade. Dissemos que, para a medicina, ela tem a ver com esse colorido que damos a nossas experiências e que quando essa cor está “alterada, transtornada” temos um transtorno de afetividade. Para podemos falar em transtorno, déficit, alteração, precisamos necessariamente partir de um parâmetros de normalidade. Só assim saberemos se algo está alterado para mais ou para menos. Isso implica em que façamos uma pergunta: qual a cor da realidade?
Ai é que entra a questão que já nos coloca em outro plano: a realidade não tem uma cor em si. Pelo menos para nós falantes. Exatamente por que a cor que vamos dar a realidade depende da nossa faculdade de “representação”. Nós não lidamos com as coisas em si, com o mundo objetivo diretamente. Mas com uma realidade mediada pela possibilidade de representá-la. Foi a isso que Freud chamou de “realidade psíquica”. Nessa perspectiva não são os fatos objetivos que contam, mas o modo como nos apropriamos deles, como os significamos, como os vivemos e como os lembramos. Ou como diria o poeta:
Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores!
O que eu vou abordar aqui só faz sentido dentro de um plano conceitual onde essa premissa é tomada como válida. O que não quer dizer que outras pessoas possam recusá-la.
Bom, então a cor da realidade vai depender da forma como representamos essa realidade. Ocorre que, não existe uma única maneira de representar a realidade. Precisamos acompanhar como isso se processa para podermos abordas as diferentes maneiras de fazê-lo:
Em primeiro lugar, podemos dizer que é impossível representar tudo, em toda experiência a ser representada há sempre algo que se perde. Isso por que para representar precisamos usar palavras e é próprio delas não conseguir dizer tudo. Poderíamos dizer isso de outras maneiras. No texto “Mal-estar na civilização” Freud fala da parcela de satisfação que somos obrigados a deixar de fora para nos constituirmos como humanos. Poderíamos usar também os mitos para nos referir a isso: O mito bíblico fala da perda do paraíso apos o homem provar o fruto proibido. No Banquete de Platão temos o mito dos andróginos que perdem uma de suas metades por tentarem alcançar o Olimpo. Ou ainda, a partir do mito que ficou mais famoso na psicanálise, Édipo, que ao descobrir seu destino incestuoso arranca os próprios olhos.
Enfim, a perda está sempre em jogo quando se trata de representar a realidade e a castração é um dos nomes dessa perda. Além disso, vale ressaltar também que essa perda é algo que afeta o sujeito, mas que é algo que se impõe precisamente no campo do Outro. É a castração do outro (da mãe, vai dizer Freud) que vai angustiar o sujeito, pois obriga-o a se deparar com o fato de que o Outro não é completo, logo o Outro deseja. O que esse outro quer de mim? Essa é a pergunta angustiante com que o sujeito se depara.
Transito entre dois lados
De um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo
Me mostro
Eu canto para quem?
Ocorre que Freud já mostrava que existem pelo menos duas maneiras diferentes de se lidar com essa perda. Uma delas ocorre quando o Eu, a serviço da realidade, se dispõe à afastar (reprimir ou recalcar) um elemento tido como traumático. Numa conferencia proferida nos Estados Unidos, Freud propõe uma metáfora interessante:
“Imaginem que nesta sala e neste auditório, cujo silêncio e cuja atenção eu não saberia louvar suficientemente, se acha no entanto um indivíduo comportando-se de modo inconveniente, perturbando-nos com risotas, conversas e batidas de pé, desviando-me a atenção de minha incumbência. Declaro não poder continuar assim a exposição; diante disso alguns homens vigorosos dentre os presentes se levantam, e após ligeira luta põem o indivíduo fora da porta. Ele está agora `reprimido’ e posso continuar minha exposição.” (Freud, cinco lições de psicanálise, 1910)
Outra possibilidade diferente de perda desse elemento é aquela que Freud chamou Verwerfung e que Lacan traduziu como Foraclusão. Enquanto que na neurose há uma barreira (uma porta, no exemplo de Freud) que se coloca entre o elemento traumático e a consciência fundando um sujeito dividido (consciente e inconsciente); Na Psicose o elemento traumático retorna invadindo a cena, embora sem possibilidade de se integrado simbolicamente a ela.
Ocorre que esse elemento negado não fica passivamente do lado de fora após ser expulso. Ele impõe sua presença, pois a força que imprime ao tentar se satisfazer não cessa nunca. O que vai se definir então é uma diferença na maneira de lidar com o retorno desse elemento excluído - isto é, na reação contra a repressão e no fracasso da repressão.
Grosso modo podemos dizer que na neurose a tentativa de retorno desse elemento envolve o processo de formação de sintomas: no corpo (na histeria), no pensamento (na neurose obsessiva) ou em elementos do mundo externo (fobia). Na psicose o que vamos ter e aquilo que Lacan chamou de um “inconsciente a céu aberto” com todos os fenômenos de invasão experimentados como alucinações, sensações de fragmentação do corpo, fuga e descarrilhamento de idéias, etc.
Mas não se trata de afirmar, como é frequente ouvirmos, que o neurótico está dentro da realidade, enquanto que na psicose, temos alguém que está fora da realidade. Há nesse processo uma perda da realidade objetiva que vai se colocar tanto para o neurótico quanto para o psicótico(2). Ambos vão tentar, portanto, reconstruir essa realidade. Só que, enquanto o neurótico faz isso pela via da fantasia, o psicótico segue o caminho do delírio.
A fantasia vai se colocar para o neurótico como uma lente por onde ele vai olhar o mundo. Uma tela que ele coloca em frente a sua janela, como diz Quinet, e por onde ele vai passar a olhar a realidade como um quadro que ele mesmo pinta:
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle...
Nesse quadro, estão todas as possibilidades de relação entre esse sujeito e o objeto que causa seu desejo. Objeto esse que ele elege para substituir o vazio provocado pela perda anteriormente citada, ao mesmo tempo em que se identifica com ele. Ou seja, diante da pergunta “O que esse Outro quer de mim?” o neurótico responde com uma frase que resume a cena onde ele se oferece como objeto para reparar o furo no Outro, gozando dessa posição. É ali também que ele sustenta seu desejo, ao manter esse objeto a uma distancia manejável.
No delírio psicótico não há encenação, mas submissão. Não há a separação do objeto pelo efeito da castração. Há uma equivalência do sujeito como objeto para o Outro. Não há mediação entre sujeito e objeto e o Outro o invade. O Delírio vai ser uma tentativa de reconstrução, de conter essa invasão do Outro.
Agora podemos pensar como isso acontece naqueles quadros que a medicina chama de Transtornos afetivos. Eu não vou utilizar esse termo, pois como vocês já devem ter percebido, o que desenvolvi até agora não se encaixa em termos de uma doença, nem de um transtorno. Mas de algo pelo qual todos nós passamos ao tentar dar conta do que é ser falante.
Tomarei então o significante “depressão”. Como afirma Quinet, esse significante “atualmente reúne sob si uma multidão de sujeitos que assim qualificam seu estado de alma quando se encontram tristes, desanimados, frustrados, enlutados, anoréxicos, apáticos, entediados, impotentes, angustiados, etc.” Virou moda dizer que se tem um diagnóstico de depressão, ou até mesmo de bipolar.
Mas a psicanálise vai se posicionar frente a essa imprecisão diagnóstica demarcando que o que está em jogo quando se fala em depressão podem ser coisas radicalmente distintas. A primeira coisa que precisamos delimitar é que este termo não pode se aplicar da mesma maneira na neurose e na psicose, pois já vimos que se trata de mecanismos bem diferentes. Enquanto que na neurose a depressão aparece como um sinal clinico, na psicose a melancolia (como chamamos a depressão psicótica) vai ser caracterizada como um quadro clínico específico. Em segundo lugar, podemos destacar que o que vai estar em jogo naquilo que chamamos de depressão está relacionado com essas diversas facetas da relação sujeito/objeto.
Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado...
Freud, no texto intitulado Luto e Melancolia afirma que o afeto característico tanto do luto quanto da melancolia é a tristeza.
O luto, ele diz, é de modo geral, uma reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante.
Pode acontecer de, nos casos de um luto extremamente penoso, haver um desânimo profundo, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade. Nisso tudo o luto pode se aproximar dos sintomas da melancolia, ou depressão psicótica.
No entanto, há nesse ultimo quadro uma coisa que não aparece nas reações de luto: uma extrema depreciação de si mesmo que culmina num delírio de ruína e uma expectativa de auto-punicão:
“O paciente representa seu ego para nós como sendo desprovido de valor, incapaz de qualquer realização e moralmente desprezível; ele se repreende e se envilece, esperando ser expulso e punido. Degrada-se perante todos, e sente comiseração por seus próprios parentes por estarem ligados a uma pessoa tão desprezível. Não acha que uma mudança se tenha processado nele, mas estende sua autocrítica até o passado, declarando que nunca foi melhor. Esse quadro de um delírio de inferioridade (principalmente moral) é completado pela insônia e pela recusa a se alimentar, e - o que é psicologicamente notável - por uma superação do instinto que compele todo ser vivo a se apegar à vida.” (Freud, Luto e Melancolia, 1917)
Segundo Freud, isso ocorre porque enquanto no luto há uma localização dessa perda em algo do mundo externo, na melancolia o que se torna pobre e vazio é o próprio Eu. A perda experienciada é equivalente a algo no próprio Eu. Ou ainda, há uma correspondência entre o próprio eu e o objeto perdido: a sombra do objeto caiu sobre o eu.
Voltando ao quadro diferencial que traçamos entre neurose e psicose, a depressão no neurótico aponta para um abalo na fantasia que este criou para lidar com a falta no outro. Ele acaba tendo que se deparar com a fragilidade dessa construção de alguma maneira, e um dos efeitos disso pode aparecer clinicamente como desânimo, descrença frente aos ideais, etc. Mas no caso da psicose, a depressão culmina num delírio onde a ideação suicida aparece como possibilidade de dar cabo do núcleo do problema: o próprio Eu. Freud ressalta ainda a impossibilidade de abalar essa crença psicótica, pois não adianta tentar convencer o sujeito de que ele não é esse quadro tão negro que pinta de si mesmo.
Para finalizar, gostaria de exemplificar rapidamente essa discussão partindo de dois exemplos que podem nos ajudar a compreender o que distinguimos como sintomas depressivos no neurótico e o delírio de ruína na psicose. Um deles trata-se de um caso clinico onde a pessoa chega se queixando de depressão.
Marcélia, 39 anos, procura atendimento com uma queixa de depressão e insônia e diz que faz tratamento médico (paroxetina e clonazepam). Afirma que tudo começou em 2005 quando sofreu um “assédio moral” por parte de seu patrão. Trabalhava há quatro anos numa loja de shopping como caixa e começou a apresentar uma dor nos braços que foi diagnosticada como tendinite.
Ao receber o diagnóstico Marcélia procura o patrão, que sugere que ela peça demissão. Como se recusou, este começou a fazê-la passar por situações constrangedoras como sentar numa cadeira isolada e passar o dia inteiro sentada, sem falar com ninguém. Ela resolveu, então que iria processá-lo e, a partir daí, esperar que “a justiça seja feita”.
Marcélia se define como alguém que sempre foi independente e se virou sozinha, se vê agora impossibilitada de trabalhar. Ela passa a peregrinar por médicos, advogados e psicólogos relacionados à área trabalhista. Nessas suas andanças pela área trabalhista adquire muitas informações sobre “seus direitos”. No entanto, sua inquietação e seu sofrimento derivam do fato de que “as pessoas não acreditam que eu estou doente”. O patrão passa a desmenti-la nas audiências; os médicos não encontram uma lesão demonstrável e isso a incomoda: “queria encontrar um exame que mostrasse que o que sinto é real”. Tem medo de que o patrão consiga ganhar a causa e que assim consiga provar que ela não tem uma doença. Essa possibilidade a angustia terrivelmente. Foi por isso que resolveu buscar atendimento em busca de uma “palavra de médico”.
Ela diz: “pois é, eu fiz de tudo pra agradar a ele, me esforcei muito e passei a trabalhar mais ainda, pra ele não ter o que dizer. Era sempre a última a sair. Mas por mais que eu fizesse ele não reconhecia, reclamava do meu trabalho e ainda desconfiava de mim achando que meu caixa não batia. Eu sempre fazia um ‘a mais’ pra que ele reconhecesse”. Esse “a mais” que Marcélia dá ao patrão é a garantia de sustentação da fantasia que lhe permite velar a falta, colocando-se como objeto na relação com o patrão que goza dela.
Nas associações que se desenrolam ao longo da análise, Marcélia faz uma equivalência entre o lugar que o patrão ocupa e o lugar da mãe que, segundo ela, estava sempre comandando, exigindo dela um trabalho sem faltas. Comando esse a que Marcélia sempre atendia. Assim como também fazia de tudo para fazer um “a mais” pelo patrão. Em ambos os casos, era pra que eles não apontassem sua falta, não reclamassem do trabalho mal feito, pois ela nunca “gostou de ser chamada a atenção”.
Em certa sessão Marcélia chega chateada porque uma colega a chamou de autoritária e diz que não é a primeira vez que isso acontece: “eu não sou autoritária, mas minha voz sai assim. Na verdade eu quero é ajudar as pessoas. Como eu aprendi muito sobre os direitos das pessoas eu gosto de orientar, dar conselhos, pra que as pessoas se conscientizem dos seus direitos. Mas elas acham que eu estou sendo autoritária, querendo mandar.”
A fantasia de Marcélia se estrutura portanto em relação a essa voz de comando, esse ser chamada à atenção. Seguindo o circuito pulsional em torno desse objeto voz, ora ela é chamada, comandada. Ora é ela quem chama, comanda. Na transferência ela também me insere nesse circuito quando passa a esperar de mim uma “palavra de médico”.
Percebemos que, no momento de deflagração dos sintomas de Marcélia, algo acontece nessa relação com o patrão que abala sua fantasia. Esse algo passa pela relação que o patrão estabelece com as outras moças que trabalham na casa (leva-as pra sair, toma cerveja com elas) enquanto Marcélia recusa-se a qualquer envolvimento com os homens (aos quarenta anos permanece virgem) e pela recusa do patrão de acreditar nela, desacreditando seu sintoma (LER), desconfiando dela: ele diz que eu estou mentindo. Só aí é que a depressão aparece como sinal ante à possibilidade de ser desmascarada na justiça por esse homem que denuncia sua falta.
Percebemos ainda que, no caso da neurose, não existe um tipo clínico depressivo, mas sujeitos deprimidos, com suas histórias para contar.
O Outro exemplo, não é propriamente um caso, mas é o excerto da carta de despedida que Virgínia Woolf deixa para seu marido Leonard Woolf antes de se suicidar.
xxx
Meu Muito Querido:
Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis e não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Se alguém pudesse me salvar, esse alguém seria você. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos
V.
xxx
Temos nessa carta de despedida um claro exemplo do que Freud chamou de delírio de ruína do melancólico. Virgínia ao apontar os motivos pelos quais dá cabo de sua vida aponta simplesmente o peso que ela representa na vida do marido, de como ela é um empecilho à vida dele, que ela destrói pelo simples fato de existir.
Aqui percebemos o que Freud quer dizer com “a sombra do objeto recaiu sobre o Eu”, pois a única saída possível que Virgínia encontra em se saber um peso, um fardo, é livrar-se desse peso colocando algumas pedras nos bolsos e se atirando em um rio.

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(1)Texto apresentado no dia 10 de junho de 2011 no Grupo de Estudos em Transtornos Afetivos da Universidade Federal do Ceará
(2)Freud traz um exemplo interessante. Ele diz: “Permitam-me retornar, a título de exemplo, a um caso analisado há muitos anos atrás, em que a paciente, uma jovem, estava enamorada do cunhado. De pé ao lado do leito de morte da irmã, ela ficou horrorizada de ter o pensamento: ‘Agora ele está livre e pode casar comigo.’ Essa cena foi instantaneamente esquecida e assim o processo de regressão, que conduziu a seus sofrimentos histéricos, foi acionado. Exatamente nesse caso é, ademais, instrutivo aprender ao longo de que via a neurose tentou solucionar o conflito. Ela se afastou do valor da mudança que ocorrera na realidade, reprimindo a exigência instintual que havia surgido - isto é, seu amor pelo cunhado. A reação psicótica teria sido uma rejeição do fato da morte da irmã.”

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Mãe e Filha: laços de desejo e devastação



Lia Carneiro Silveira
“Não esqueci de nada?” Perguntava em “Os Laços de Família” a mãe que retornava depois de alguns dias de visita à filha. A história se passa num táxi, no trajeto entre a casa da filha e a estação onde a mãe pegaria o trem. Apesar da aparente banalidade do diálogo (que num primeiro momento faz supor tratar-se de malas o tal objeto esquecido) e do pouco tempo em que a história se desenrola, é palpável a tensão que entre mãe e filha vai se produzindo. No início Catarina, a filha, apressa-se em assegurar à mãe que ela não esquecera de nada. Em seus pensamentos, diverte-se com o constrangimento que a visita da mãe gerara em seu marido e no esforço de ambos para parecerem “genro e sogra modernos”. Depois é o filho de Catarina que entra como o terceiro que tensiona a relação entre as duas, quando Severina, a mãe, lança críticas ao fato do menino ser magro e nervoso como se culpasse alguém por isso. “Não esqueci de nada?” Começa perguntar pela enésima vez a mãe quando de repente, algo acontece. Também à Catarina parecia que haviam esquecido de alguma coisa, e ambas se olhavam atônitas – porque se realmente haviam esquecido, agora era tarde demais. (LISPECTOR, 1998)
O que mãe e filha sentem tão intensamente ter esquecido? Será que se trata realmente de um esquecimento, ou de uma impossibilidade? É no fio da pergunta que atravessa o conto que nos deslocamos em busca de respostas a esse inquietante lapso que não cessa de não se escrever na relação mãe e filha e que está presente não apenas no conto clariceano, mas, segundo Freud, na base da função estruturante da mãe para os filhos de ambos os sexos.
Lacan também pontua esse “a menos” na relação com a mãe, principalmente ao tratar-se da filha mulher que parece esperar daquela muito mais “substância” que do pai (LACAN, 2003). Nesse ponto podemos nos perguntar: mas do que se trata nessa substância? O que é que a filha espera da mãe e que, ao invés de obter, é frustrada, chegando muitas vezes ao que Lacan chamou de devastação? O que ficou esquecido entre mãe e filha?
Apesar de ter sido a sexualidade feminina, sintomatizada e apresentada a Freud pelas histéricas de sua época que praticamente o forçou a produzir a teoria psicanalítica, foi ao padrão masculino que ele recorreu quando tentou formular sua teoria da libido. É assim que, já na “Interpretação dos Sonhos”, em 1900, Freud recorre ao mito de Édipo para explicar os caminhos seguidos pela sexualidade humana afirmando que é destino de todos nós, talvez, dirigir nosso primeiro impulso sexual para nossa mãe, e nosso primeiro ódio e primeiro desejo assassino para nosso pai. (FREUD, 1900, p. 258)
A idéia é retomada nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905) quando, Freud tenta articular alguns elementos que começam a se apresentar na prática clínica. Dentre estes achados está a constatação da existência de uma sexualidade infantil e de um mecanismo que atua encobrindo os primeiros anos da infância, condenando ao esquecimento os fatos relacionados a esta sexualidade, sugerindo que há algo de incompatível entre essa vivência infantil e o processo de civilização. Outra característica da vivência da sexualidade infantil é seu caráter auto-erótico, ou seja, o fato de que a pulsão não está dirigida para outra pessoa, mas se satisfaz no próprio corpo. Entretanto, como conseqüência natural de suas experiências posteriores, tanto o menino quanto a menina seriam forçados a deparar com a diferença sexual, constatando que nem todos os seres têm um pênis. A criança seria, então, induzida a posicionar-se nessa partilha, afastando-se da vivência auto-erótica e realizando uma escolha objetal.
Apesar de inicialmente ter suposto que poderia adotar um só modelo explicativo tanto para o menino como para a menina, Freud percebe que esse momento vai representar uma bifurcação quanto à definição dos dois sexos. Para analisar o desenrolar desses percursos, Freud inicia destacando a importância fundamental da relação com a mãe, tanto para o menino, quanto para a menina.  Ela é o primeiro ser ao qual a criança, independente de seu sexo, encontra-se visceralmente ligada. Depende dela para alimentá-la e cuidar de todas suas necessidades. Além disso, é ela quem investe libidinalmente o corpo da criança através de seus cuidados maternais. Nesse papel de maternagem a função da mãe é situada muito além do ideal carinhoso e assexuado comumente atribuído a ela. Pelo contrário, toda sua dedicação é uma fonte incessante de excitação e satisfações sexuais vindas das zonas erógenas: ela a acaricia, beija e embala, e é perfeitamente claro que a trata como o substituto de um objeto sexual plenamente legítimo. (Freud, 1905, p. 210) Por seu caráter erotizante, a submissão a esses cuidados não é sentida apenas como satisfação, mas também como risco de um excesso.
Catarina, a personagem do conto que tomamos como exemplo, conta que quando criança sentada à mesa, tinha uma mãe que sempre enchia-lhe o prato, obrigando-a a comer demais. "Demais” é o significante que marca esse instante da relação mãe-filha, apontando para uma enxurrada de satisfação que chega a doer. A forma como Freud descreve essa intensidade chega a ser assustadora, pois a considera perpassada por um germe: o surpreendente temor de morta (ou devorada) pela mãe. Lacan também não a descreve menos perigosa: o desejo da mãe não é algo que se possa suportar assim, que lhes seja indiferente. Carreia sempre estragos. Um grande crocodilo em cuja boca vocês estão – a mãe é isso. Não se sabe o que pode lhe dar na telha, de estalo fechar sua bocarra. O desejo da mãe é isso. (Lacan, 1992; p. 105)
No desenrolar da tensão do encontro, Catarina aponta o peso dessa relação, sentenciando: Ninguém mais pode te amar senão eu, pensou a mulher rindo pelos olhos; e o peso da responsabilidade deu-lhe à boca um gosto de sangue. Como se “mãe e filha” fosse vida e repugnância. Não, não se podia dizer que amava sua mãe. Sua mãe lhe doía, era isso. (Lispector, 1998; p.97)
Entretanto, como afirma Colette Soler (2005) o que a psicanálise permite perceber é que, para além do amor materno e de todos os cuidados dispensados à criança, é naquilo que falta à mãe, ou seja, na sua castração, que reside sua “função essencial” (SOLER, 2005). É preciso que ela se instale como falta-a-ser, referida à um pai, a um significante do pai, que na operação de escrita da metáfora paterna vai poder marcá-la como não-toda para seu filho. 
No conto, Catarina lembra que nesses momentos à mesa, em que amor e comida se inscreviam em excesso, era através de uma piscadela que sutilmente o pai atuava como barra: Do pai sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a mãe enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais, os dois se olhavam, piscando em cumplicidade e a mãe nem notava. (LISPECTOR, 1998; p.96) Ínfimo instante esse marcado apenas pela sutileza de um piscar de olhos. No entanto, afirma toda sua potência ao substituir o significante da mãe (demais) pelo significante paterno (piscadela), instituindo o pai como terceiro fora da série.  
É preciso que ao “demais” da comida, da libidinização do corpo, da alienação no desejo do Outro venha se antepor o “de menos” (-j), como o significante fálico. Ao surgir como significante ele marca uma ausência, força o surgimento de um par de oposições e, com isso, possibilita a dialetização do desejo. O pai com suas piscadelas de conivência certamente têm muito a ver com isso, pois ele é o suposto dono do graveto potencial que impede a bocarra de se fechar.
Entretanto, retomando com Freud os meandros por onde a filha precisaria passar em busca de situar seu lugar na partilha entre os sexos, percebemos que há diferenças em relação ao caminho percorrido pelo filho homem: No caso do menino, isso não é difícil de explicar. Seu primeiro objeto amoroso foi a mãe. Continua sendo, e, com a intensificação de seus desejos eróticos e sua compreensão interna mais profunda das relações entre o pai e a mãe, o primeiro está fadado a se tornar seu rival. (FREUD, 1931, p. 259) Forçado a fazer uma escolha entre a preservação do órgão ameaçado pelo pai e o amor pela mãe, o menino frequentemente opta pela primeira opção mantendo seu interesse narcísico e dirigindo seu interesse para outras mulheres. Dessa forma preserva tanto o pênis (enquanto zona erógena) quanto o sexo oposto (como objeto sexual). No caso da menina, entretanto, seria preciso mais algumas voltas: sua trajetória inclui duas tarefas extras às quais não há nada de equivalente no desenvolvimento de um homem (FREUD, 1932, p.145).
Por ocasião do ingresso na fase fálica, as diferenças anatômicas entre os sexos são, segundo Freud, completamente eclipsadas. A menina confere ao seu clitóris um valor equivalente àquele que o menino dedica ao seu pênis. Outro ponto em comum no desenvolvimento de ambos é o fato de tomarem a mãe como objeto de amor. Entretanto, as semelhanças só vão até aí. Com o passar do tempo, a menina, ao contrário do menino, terá que abrir mão tanto de sua tão valorizada zona erógena, como de sua primeira escolha de objeto. Ou seja, abandonar sua intensa relação com a mãe, dirigir seu interesse para o pai, abandonar o clitóris como fonte de prazer e, ainda, conseguir deslocá-la para a vagina.
Na conferência sobre “A Feminilidade”, Freud lembra quão árdua pode ser essa tarefa, tendo em vista que o valor desse estádio de vinculação com a mãe não pode, de maneira alguma, ser subestimado.  Ele se pergunta, então, acerca do que seria essa coisa que põe fim à poderosa ligação da menina com sua mãe e a resposta a que chega é surpreendente: O afastar-se da mãe, na menina, é um passo que se acompanha de hostilidade; a vinculação à mãe termina em ódio. (FREUD, 1932, p. 150) Decorrem desse ódio uma série de recriminações que incluem desde a queixa de ter recebido pouco leite, o temor de ter sido envenenada, a raiva pela chegada de um outro bebê até a proibição da masturbação. Entretanto, como todos estes fatos podem ocorrer também ao menino, a queixa que finalmente vai conseguir afastar a menina de sua mãe está além dessas contingências. É com surpresa que Freud constata a responsabilização da mãe pela falta do pênis na menina como o fato que, enfim, vai conseguir exercer a separação.
Segundo Lacan (1992, p. 92) é nessa descoberta que desemboca a importância da elaboração do Édipo em Freud: são coisas que se tomam como metáfora para tentar abordar essa semi-verdade. Afirma que o Édipo é um mito que seria estritamente inutilizável não fosse por esse grosseiro lembrete do valor de obstáculo que a mãe tem para todo investimento de um objeto como causa do desejo. O Penisneid está aí para mostrar que se coloca como censura à mãe aquilo que está desde o princípio como impossibilidade.
A referência à função fálica é o necessário. É aquilo que não para de se escrever. Do outro lado estaria o impossível, como aquilo que não para de não se escrever. O impossível da completude entre os sexos. O impossível como esse momento mítico de um suposto encontro com um objeto passível de suturar a falta. (LACAN, 1985)
Entretanto, segundo Lacan (1985), não se trata de uma simples oposição entre necessário e impossível, pois estas duas categorias modais estão conjugadas. Há que se considerar ainda o que para de não se escrever como aquilo que realiza esta articulação. Além do necessário do encontro com a falta e do impossível de satisfação das queixas e recriminações contra a mãe, é preciso considerar também o contingente como aquilo que submete a relação sexual a ser, para o falante, apenas o regime do encontro, como aquilo que cessa de não se escrever (LACAN, 1985, p 127).
No conto que tomamos como fio o encontro se dá pelo choque, o desastre. É a contingência corporal que permite a inscrição de um gozo que mostra que apesar de o amor ser impossível e da relação sexual se abismar no não-senso, isso não diminui em nada o interesse que devemos ter pelo Outro (LACAN, 1985, p. 118). Não esqueci de nada..., recomeçou a mãe, quando uma freada súbita do carro lançou-as uma contra a outra e fez despencarem as malas. As tão esquecidas (mas nem por isso menos lembradas malas). Seus olhos piscaram surpreendidos, ela ajeitava as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente remediar a catástrofe. Era inútil esconder que realmente sucedera algo: Catarina fora lançada contra Severina, numa intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca se haviam realmente abraçado ou beijado.(LISPECTOR, 1998)
Depois do choque, Catarina despacha Severina na estação e sem a companhia da mãe recuperara o modo firme de caminhar: sozinha era mais fácil. Alguns homens a olhavam e ela era doce, um pouco pesada de corpo (LISPECTOR, 1998). Segundo Soler (2005), na perspectiva demarcada por Lacan, a falta fálica da mulher vê-se convertida no benefício de ser aquilo que falta ao Outro, convocando-a na relação sexuada a assumir o lugar do objeto. Mas é sempre para um outro, e nunca em si que se pode ser o falo.
Ainda assim, é preciso lembrar que ela está não toda submetida à função fálica. Ao chegar em casa, Catarina encontra o marido sentado em sua poltrona e lendo o jornal: porque o sábado era seu, mas ele queria que sua mulher e seu filho estivessem em casa enquanto ele tomava o seu sábado. Entretanto, quando menos esperava, a mãe já havia tomado o menino pela mão e saído sem dizer pra onde. Catarina! Chamou aborrecido embora soubesse que ela não poderia mais ouvi-lo. E ao ver a mulher se afastando, pensava sobre esse momento em que a mãe, apertando uma criança, transmitia ao filho uma herança. O instante em que dava ao filho essa prisão de amor que se abateria para sempre sobre o futuro homem. Angustiado frente esta constatação ele pensa: Catarina, esta criança ainda é um inocente!
REFERÊNCIAS
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas, Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1905.
FREUD, S. A Interpretação dos Sonhos. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas, Vol. IV. Rio de Janeiro: Imago, 1905.
­­­­­­­­_________ Sexualidade feminina. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas, Vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1931.
_________ A feminilidade. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas, Vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1932.
LACAN, J. O Seminário, Livro 17, O Avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
________. O Seminário, Livro 20, Mais Ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
________. O Aturdito In Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
LISPECTOR, C. Os Laços de Família In Laços de Família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
SOLER, C. O que Lacan Dizia das Mulheres. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

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